sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Esaúl Álvarez - Metapolítica e Tradição: Por uma Ciência Tradicional da Política

por Esaúl R. Álvarez



Com certa frequência se ouve dizer que a Tradição, qualquer que seja, como caminho espiritual de realização deve estar separada da política. Muitas vezes, esta posição é defendida com um argumento de conveniência: quem segue um caminho espiritual não deve 'se meter' na política, mas deve tratar exclusivamente de sua realização pessoal.

Às vezes, se vai ainda mais longe na defesa da incompatibilidade entre os dois campos, sob a idéia geral de que a Tradição não pode desempenhar um papel político de algum tipo sem degenerar e trair a si mesma, o que resulta algo paradoxal, pois a Tradição trata precisamente de criar um quadro abrangente para a existência humana em que todo o humano fique incluído e seja harmonioso.

No fundo nós acreditamos que essas atitudes vêm de um duplo erro:

* uma ideia reducionista e errônea sobre o político, uma ideia que foi criada e ampliada precisamente por aqueles que têm contribuído para a destruição da política e o fagocitaram e puseram a seu serviço.

* uma ênfase excessiva colocada em determinados ambientes do marco esotérico sobre o exotérico, esquecendo quando não desprezando diretamente os aspectos exotéricos e sociais envolvidos em cada Tradição autêntica.

Esta atitude de rejeição da política, que parece cada vez mais comum em alguns círculos tradicionais, é um desejo de não participar na sociedade que realmente não tem nada tradicional, como veremos, e nos parece que mostra a assunção inconsciente de certas ideias e influências claramente anti-tradicionais.

Um desejo de não participar do comum que, nas atuais circunstâncias, dificulta ainda mais se possível a própria sobrevivência da Tradição e favorece a sua adulteração pelas numerosas seitas new-age, ao impedir que a Tradição se mostre aos homens como ela é, em todas as suas manifestações.

I

O argumento mais comum para justificar esta posição é que, do ponto de vista espiritual a política é sempre secundária, porque o primeiro e mais urgente seria o trabalho individual. Muitas vezes cita-se para apoiar este argumento, a passagem evangélica de Maria e Marta. Isso pode ser verdade em princípio, mas faz-se necessário matizar que, sendo secundário, é, contudo, necessário. E não só do ponto de vista social, mas também do ponto de vista particular de cada um, porque ao contrário do que a propaganda tenta fazer crer, o indivíduo não pode se desenvolver sem uma rede social ou comunidade de algum tipo.

Destacamos dois argumentos básicos contra essas ideias. A primeira é que para ao se retirar a Tradição e voluntariamente renunciar ao mundo deixa-se o campo livre para o adversário anti-tradicional fincar suas posições e semear sua propaganda sem oposição. Na sociedade isso é evidente para qualquer observador minimamente sensato.

Além disso o esquecimento ou negligência consciente e voluntária da posição que o indivíduo ocupa na sociedade é uma abdicação clara de responsabilidades para com a própria comunidade - abandono que só pode vir da aceitação do individualismo moderno - e abandonar à sua sorte os semelhantes, concidadãos com os quais se compartilha a sociedade e a vida, melhor ou pior. Tal atitude deve ser entendida como uma falta de solidariedade, ou em outras palavras, um pecado contra a caridade.

A renúncia desde instâncias tradicionais a exercer as suas funções no destino e bom governo da sua comunidade propicia que a política - no sentido amplo da palavra - seja seqüestrada por tecnocratas, políticos profissionais e forças capitalistas, facilitando o esvaziamento progressivo de seus conteúdos e sua redução ao ponto de vista economicista próprio da sociedade atual.

É muito provável que a maioria dos nossos contemporâneos não prestem qualquer atenção para o testemunho emitido a partir de Tradição, mas também é certo que há aqueles que procuram de boa-fé sem encontrar o caminho, o caminho reto. E isso, em grande parte, porque nas circunstâncias atuais é cada vez mais difícil separar o trigo do joio, por exemplo, entre esoterismo e ocultismo, ou entre Tradição e new-age, especialmente para aqueles que seguem dominados pela mentalidade profana, embora isso não os satisfaça completamente. Não se deve esquecer que o âmbito de organizações de origem tradicional é particularmente cheio de seitas e imposturas diversas muito perigosas, como é fácil perceber, por exemplo, no mundo do orientalismo, do ioga ou do Vedanta. Portanto, qualquer trabalho de conscientização que se faça e possa servir de ajuda na hora de discriminar pode ser valioso.

Sem dúvida, as circunstâncias atuais não são as mais favoráveis ​​para depor, mas precisamente por isso é um imperativo mais necessário e incontornável para qualquer que se considere ligado à Tradição. Em uma sociedade como a atual o homem tradicional deve primeiro ser exemplar: um exemplo de que outro tipo humano e outra sociedade são possíveis.

II

Além disso, o afastamento também é um erro em um sentido estratégico. Além de ser um sinal de fraqueza perante o mundo profano, o distanciamento tradicional que dura já décadas no caso do Ocidente, não foi benéfica em nada. Muito pelo contrário. O mundo secular não cessou seus ataques, ao contrário, tornou-os mais virulentos, assoberbado ao perceber a fraqueza e apatia da Tradição em todos os seus aspectos.

Aqui tem sido crucial historicamente a assunção por toda a sociedade - e, especialmente, pelos setores que se dizem conservadores - de certas idéias modernas e progressistas - ou seja, enquadradas sob a superstição do progresso - inoculados através de uma propaganda de mais de um século, muitas vezes sob aparência científica, e que moldam o pensamento inconsciente e automático da maioria dos nossos concidadãos.

Referimo-nos a ideias e conceitos como 'apolítico', 'secular', 'laico' ou 'agnóstico', para dar alguns exemplos que são repetidamente empregados pelo discurso do poder. Na verdade, um exercício simples de observação destinado a advertir a partir de que ambientes sociais e econômicos idéias como a do apolítico, do laicismo ou do agnosticismo são promovidas, deve ser suficiente para qualquer um não sobressocializado a desconfiar delas imediatamente, pois trata-se de propaganda.

O caso do conceito de apolítico é o mais diáfano para o que queremos mostrar: é uma falácia instigada a partir do poder para que a 'cidadania' se desvincule voluntariamente do espaço do comum. Ou seja, ele procura alcançar uma retirada semelhante à feita pelos núcleos tradicionais, mas a nível individual.

Além disso, o conceito de apolítico é uma impossibilidade prática tão óbvio que não merece muito tempo de nossa atenção. Digamos que todo espaço social, cultural, econômico ou de qualquer outro tipo deixado vazio em uma sociedade é sempre ocupado por outras forças sociais em um tempo muito curto - na sociedade ocidental de hoje essas forças vêm sem exceção das elites econômicas.

Nem o ente estatal com seu exército de tecnocratas, nem o capital, nem os políticos profissionais deixarão de ocupar esse lugar e exercer sua influência sempre que seja possível, de tal modo que tudo que os cidadãos delegam ao órgão administrativo do Estado - que esses mesmos cidadãos despojados chamado 'Estado de Bem-Estar' - imediatamente se torna um alvo prioritário para os poderes econômicos capitalistas, com a pretensão de rentabilizá-lo.

Em suma, a idéia de 'cidadão apolítico', cujo exemplo mais extremo e grotesco é o de reduzir a participação política a colocar um papel em uma urna - que é acima de tudo e antes de tudo um gesto de submissão - é extremamente prejudicial para toda a sociedade. Renunciando à política se abandona e cede o espaço da convivência e do comum. E é por esta razão que tais idéias são promovidas a partir do próprio poder, especialmente no que diz respeito à juventude.

Algo semelhante acontece com a ideia do Estado não-confessional/secular, embora talvez neste caso haja implicações ainda mais graves porque se renuncia explicitamente a partir do Estado a proteger à maioria, e se cede esse espaço para que outras crenças - sejam as ideologias modernas ou as muitas pseudo-religiões e seitas new age - assumam seu controle. E em alguns ambientes se dão ambos os casos: uma ideologização fanatizada ligada a práticas ocultas perigosas.

Todo este espaço abre precisamente graças à defesa do secularismo, o costume negar o uso continuado da defesa da 'liberdade individual' passado e tradições, e como se todos dispusiera um critério infalível para executar a vida. Própria riqueza e sucesso dos cultos da nova era na Espanha desmente essas fantasias sem uma discussão mais aprofundada.

Pode-se concluir que, sob o pretexto da liberdade e da tolerância, há uma clara intenção de laminar a sociedade e de romper os seus fundamentos. Como já dissemos muitas vezes trata-se de desenraizar o sujeito e deixá-lo sem tecido social. E isso se torna uma certeza indiscutível quando olhamos para os frutos que todas essas políticas de defesa da 'liberdade individual' geraram.

III.

Todas estas razões podem ser resumidas em uma só: a crença de que a política, quer dizer a ciência do governo da Pólis, é independente - inclusive no marco teórico ou filosófico - de qualquer Via tradicional.

É com base unicamente nessa ideia, a saber, que o comum pode e deve ser governado e administrado segundo o modo profano, que encontramos tantas contradições político-ideológicas entre pessoas pertencentes ao âmbito tradicional. Aqui vemos até que grau as ideias liberais e modernistas, que podemos resumor como "revolucionárias", penetraram na mentalidade corrente.

Trataremos de sintetizar os argumentos contra essa tese em seguida.

Na sociedade tradicional não há lugar para o profano: todas as atividades humanas são consideradas sagradas. Quando se pede mais espaço para o profano sob o já conhecido argumento da "liberdade" e dos "direitos" se trata simplesmente - e de forma bem consciente - de ganhar posições na demolição paulatina do mundo tradicional.

Este caráter sagrado dos atos, tanto quotidianos como excepcionais, do homem tradicional, está muito longe de consistir no ritualismo exagerado - ao modo das atuais coroações da realeza europeia - tal e como costumam imaginar nossos contemporâneos, que se acostumaram a confundir o tradicional com o mero folclorismo, que é uma espécie de relíquia que conserva - quando o faz, ultimamente nem isso - o mais formal e exterior do que fora em algum momento uma tradição.

O que o caráter tradicional pressupõe ou implica é nada menos que uma vinculação profunda ao Princípio Superior, de tal modo que a ação sagrada situa quem a realiza - desde a coroação de um rei à fabricação de sapatos ou à construção de uma casa - em seu contexto espiritual e universal. Dito de outro modo, mediante a ação sagrada - sacrifício - o microcosmo que é o ser humano se ressitua e se religa com o macrocosmo, macrocosmo que não é o "mundo" em sentido profano, mas a Totalidade da existência universal - a Criação - implicando por isso todos os níveis e modalidades do Ser. Por meio da ação sagrada o homem se reordena no universo e entra em comunhão com o resto da manifestação - Criação. É também por essa razão que a ação sagrada cria a comunidade e une o povo a um nível impensável para a mentalidade profana do homem moderno.

As consequências do que dissemos para o tema que tratamos resultam óbvias. Para a mentalidade tradicional a política não é e não pode ser algo alheio, independente ou distante, é ao contrário algo obrigado. E já indicamos em ocasiões que na sociedade tradicional nenhum saber é independente dos outros ou menos ainda dos Princípios metafísicos que constituem o fundamento - simbolicamente, o Eixo - de dita sociedade. De modo que uma verdadeira ciência da Política é inseparável dos princípios superiores que constituem sua Tradição.

A política na sociedade tradicional pode ser entendida como o meio pelo qual se constroi e funciona uma comunidade humana em harmonia com os princípios metafísicos sobre os quais dita sociedade se funda. Uma sociedade na qual, nas palavras de Guénon:

"Cada qual deve normalmente desempenhar a função a que está destinado por sua própria natureza; e não pode desempenhar outra sem que deixe de ocorrer por isso uma grave desordem, que terá repercussão sobre toda a organização social de que forma parte". [1]

Acrescentaremos a estas palavras de Guénon uma consideração mais, não raro passada por alto. Uma sociedade tradicional é aquela que além de permitir o cumprimento do swadharma de cada membro particular - que é exatamente a que se refere Guénon no parágrafo imediatamente anterior ao citado - garante a acessibilidade das vias de realização adequadas para aqueles que eventualmente o demandem e estejam naturalmente capacitados. É óbvio que essa condição não se cumpre no mundo de hoje. Ao contrário, cada vez é mais difícil encontrar vias iniciáticas efetivas e funcionais. E ainda diremos algo mais: este era e é o objetivo último - com frequência inconsciente - de toda a "revolução moderna", que pode resumir-se nisso: romper a cadeia iniciática e impedir o acesso efetivo à mesma daqueles que se encontrem potencialmente qualificados.

Como pode então alguém vinculado honestamente a uma Tradição permanecer à margem de tais acontecimentos? Se renuncia voluntariamente a dar batalha, rechaçando o estar presente no Fórum ou Assembleia, como podem então essas mesmas instituições ou pessoas - que deveriam ser um baluarte e um exemplo de resistência perante o avanço do ponto de vista profano e mercantilista - queixar-se ou mostrar sua insatisfação em relação aos desvios que a sociedade vai tomando?

Portanto, para os homens que se considerem vinculados a uma via tradicional, a ação política - sem reduzir esta em absoluto a seu sentido profano e moderno - é um imperativo. Tudo isso sem esquecer que, em um sentido amplo e sagrado, a própria ação ritual é já em si mesma uma manifestação política.

A razão que se argumenta geralmente sobre a inevitabilidade de certos acontecimentos devido ao avanço do ciclo cósmico não nos parece razão suficiente para justificar um distanciamento voluntário que parece mais exatamente uma antecipação da derrota.

IV.

Voltando ao início desse artigo queremos dizer algo mais para concluir. Dissemos que a defesa da Tradição e a ação política eram necessárias inclusive desde um ponto de vista pragmático, tão próprio de nossa sociedade, onde só o rentável a curto prazo é considerado útil.

Pois bem, desde o ponto de vista da Tradição, o marco exotérico cumpre a função de anel protetor - não só metaforicamente - do núcleo esotérico dessa mesma Tradição [2], de tal modo que a destruição ou perversão do exoterismo põe em grave risco o próprio núcleo esotérico. Isso não deve ser nunca perdido de vista.

Já dissemos que este desprezo pelo exoterismo e pelo papel sócio-político que pode e deve cumprir a Tradição deve ser considerado uma intoxicação moderna, e inclusive uma influência nefasta do new ge nas últimas décadas, pois tal ideia põe isso que chamam o "desenvolvimento pessoal" do indivíduo na frente e acima de sua comunidade, que é seu contexto e seu cosmo vital. Quer dizer, o "eu" - precisamente o que se trata de combater desde a perspectiva tradicional - se põe na frente de tudo, neste caso a comunidade, quer dizer, dos outros. Um ponto de vista individualista e egoísta sob todas as luzes.

Agora bem, sempre partindo do fato de que a disposição pessoal para a ação política será antes de tudo uma questão de temperamento, e portanto da natureza própria de cada ser - o que nos remete de novo à idei de swadharma - a única diferença assumível neste sentido é aquela que estriba entre a diversidade do ponto de vista bramânico e o ponto de vista kshatria.

Dito de outro modo, frequentemente se ouve lamentar, seguindo indubitavelmente Guénon, a ausência de uma "elite intelectual" no Ocidente, mas se esquece com muita frequência de uma elite kshatria, quer dizer, político-guerreira, e se a primeira pode passar despercebida para o homem corrente, a segunda de forma alguma pode permanecer oculta para a sociedade da qual ela faz parte.

Quiçá não é mal momento para recordar que a principal consequência sociopolítica da existência dessa elite intelectual e espiritual não é outra que a constituição das correspondentes elites a partir das outras duas castas: a kshatria e a vaishya. E ambas elites tem que estar inscritas de forma ativa e coerente no interior da sociedad e participar da mesma, sendo a atividade política enquanto governo do comum a atividade própria precisamente da segunda casta, coisa que não raro se esquece em favor do mito guerreiro.

Resumindo, a elite espiritual deve ser um tipo de catalizador que facilite e guie a ação política transformadora para sua sociedade. Mas isso só pode fazê-lo uma "elite espiritual" que assuma plenamente sua função educadora e formadora de maneira integral dos sujeitos que conformarão sua sociedade.

Do dito se conclui que - ainda que seja de um modo pouco visível - nem mesmo a chamada "elite intelectual" pode estar à margem do político, tal e como demonstram figuras como São Bernardo, Santa Hildegard ou tantos outros santos da cristandade.

A conclusão é que longe de sentir repugnância pela questão política a partir da Tradição é urgente a constituição e formação de uma elite política de caráter tradicional assim como a criação de uma ciência política tradicional destinada a reendereçar o colapso social atual, fazendo da sociedade um microcosmo e que não esqueça o valor do sagrado.

___________

(1) -  Guénon, R. La iniciación y los oficios.
(2) -  Pode-se descrever segundo o simbolismo do ovo como a clara e a gema do mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.