sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Alain de Benoist - A Quarta Dimensão

por Alain de Benoist



A modernidade gerou com sucesso três grandes doutrinas políticas rivais; o liberalismo no século XVIII, o socialismo no século XIX e o fascismo no século XX. Sendo o último na linha, o fascismo também foi o que desapareceu mais rapidamente. Porém, a desintegração do sistema soviético não deu fim às aspirações socialistas e menos ainda às ideias de comunismo. O liberalismo, de sua parte, parece ser o grande vencedor nessa competição. Em todo caso os princípios do liberalismo, encabeçados pela ideologia dos direitos humanos, e prosperando agora dentro da Nova Classe por todo o planeta, são hoje os mais difundidos dentro do esquema do processo de globalização.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - A América Latina deve ser um Grande Poder Regional

Entrevista concedida ao jornalista argentino Marcelo Taborda, do jornal La Voz del Interior



Desde a vitória eleitoral de Donald Trump, a Rússia tem sido acusada de ter intervindo nela e em qualquer votação importante que ocorra no planeta: o que há de verdadeiro nisso e o que você pensa a respeito?

Para começar, creio que devemos compreender isto de maneira simbólica. Comparemos o lugar que a Rússia ocupava há 20 anos, quando nada se falava ao seu respeito e seu poder regional era muito limitado – quando seguia o contexto da civilização ocidental, imitando os Estados Unidos, como fez Boris Yeltsin: isso era o fracasso total. O fato de que, hoje, depois de tantos anos, a Rússia é representada como um poder global que pode exercer influência sobre o “Número Um”, seja isso falso ou verdadeiro, que afirmem que ela pode influenciar as eleições americanas, significa que a Rússia retornou. A Rússia está de volta e joga um papel no poder global. Aos olhos dos Estados Unidos e dos Estados que seguem sua a linha globalista e liberal, a Rússia representa o mal absoluto. No entanto, para a maioria da humanidade, representa uma nova potência que ressurge, que reaparece, e que abre a possibilidade de escolha… Eu olho bastante para o Oriente Médio e vejo como o retorno da Rússia à Síria é visto pelos árabes, incluindo os curdos e os sauditas, como algo próximo a um milagre: todos veem que a situação não é unipolar, mas multipolar. É possível fazer alianças ou se unir aos Estados Unidos e seus seguidores, mas também com a Rússia (como poder oposto).

Creio que a ingerência da Rússia nas eleições americanas é exagerada, mas o lugar simbólico está demarcado corretamente. Pessoalmente, propus aos nossos governantes que fossem mais ativos nestas eleições, mas eles escolheram a estratégia tradicional. Os oligarcas russos financiaram a campanha de Hillary Clinton porque a maioria dos analistas pensava que ela venceria. Vladimir Putin tinha simpatia por Donald Trump e eu mesmo o apoiava ativamente, mas isso não é ingerência.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Julius Evola - Israel: Seu Passado, Seu Futuro

por Julius Evola

1937, na revista La Vita Italiana



Uma obra que definitivamente deveria ser trazida à atenção de todos os estudiosos da Questão Judaica, e, em geral, daqueles que seguem o debate dessa questão, é o livro recém-publicado de Herman de Vries de Heekelingen: Israel, son passé, son avenir (Paris: Perrin, 1937). De fato, poucas outras publicações apresentaram a essência do problema judaico com tanta clareza, tanta objetividade, e com tamanha riqueza de documentação.

Ela não vem com qualquer traço de sectarismo ou zelo - o que é precisamente o que é necessário para enfurecer os emissários da Kahal, que acham extremamente conveniente ver as fileiras de seus adversários repletas apenas de fanáticos e indivíduos confusos. A primeira parte do livro, principalmente, é importante, mesmo que apenas pelo excelente material reunido das mais variadas fontes. Em relação ao segundo aspecto do problema - o futuro de Israel - se os argumentos de de Vries não parecem inteiramente convincentes, especialmente para nós italianos (e veremos o motivo), isso é menos por culpa do autor do que pelo próprio assunto em questão, do problema judaico, o qual, quando considerado em profundidade, é um problema tão inescapável quanto carente de soluções positivas.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - O que é Civilização?

por Aleksandr Dugin



A Demanda por uma Definição Mais Exata

Isso emerge do sentido fundamental de nossa época, transitando da modernidade à pós-modernidade, que essencialmente afeta campos semânticos e formas linguísticas. E, na medida em que nos encontramos na fase de uma transição ainda não terminada, uma confusão inconcebível reina em nossas noções: alguém usa termos costumários em seu antigo sentido; alguém, sentindo a necessidade de substituição semântica, olha para o futuro (que ainda não chegou); alguém fantasia (talvez se aproximando do futuro ou simplemente caindo em alucinações individualistas e irrelevantes); alguém se confunde completamente.

Independentemente de qual seja o caso, para o uso correto de termos, especialmente termos fundamentais, aos quais, indubitavelmente, o conceito de civilização pertence, é necessário hoje realizar, ainda que de forma elementar, uma desconstrução, traçando o significado ao contexto histórico, e rastreando as mudanças semânticas básicas.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Maurizio Lattanzio - Estado, Partido, Povo, Revolução: O Estado Popular Khmer de Pol Pot

por Maurizio Lattanzio



O epílogo cíclico da decadência ocidental é a extenuação racial da forma antropológica e a deformação "teratológica" do tecido social no qual "se agitam" as massas de indivíduos "pululantes" nas áreas metropolitanas do Ocidente judaicoplutocrático.

A desordem dos indivíduos "possuídos" pelas pulsões consumístico-mercantis correlativas às dinâmicas neocapitalistas predominantes nas democracias usurárias ocidentais é a estação terminal do processo de dissolução antropológica e de fragmentação social induzido pela "decomposição" ontológica da ordem da raça. É o fétido e lamacento "flutuar" antropoide da raça burguesa, a qual tem patologicamente gravada a "marca" repugnante da inferioridade racial sobre a mesma imagem física do "cidadão" ocidental: "Eu sofro - escreve Drieu La Rochelle - por causa do corpo dos indivíduos (...); que coisa horrível caminhar pelas ruas e encontrar tanta decadência, tanta feiura, tanta imperfeição: costas curvas, ombros caídos, barrigas inchadas, músculos frágeis, rostos flácidos". Tal é o desdenhoso "garrancho" descritivo que representa à sub-raça cidadã, imortalizado pela pena de Drieu.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Ernst Niekisch - Violência e Espírito

por Ernst Niekisch



A princípio, a violência e o espírito são antíteses. O espírito é o primeiro antagonista da violência. O espírito cresceu a tal extremo que, no fim das contas, ele se situa sempre contra a violência. A violência é sentida como ampla e maciça no espaço; o espírito tem ao seu lado o tempo, e em todo caso mostra ir mais longe com ele. Onde a violência se sobrepõe, o espírito mina o terreno em que ela descansa. Quando a pressão da violência cresce de forma desmesurada, o espírito organiza uma contrapressão que não pode ser controlada; onde a sua compulsão não deixa alternativa de escape, ele descobre portas traseiras. Ele destroi a reputação da violência, rouba sua boa consciência e a leva a um estado máximo de ridículo que é fatal para ela. Esta oposição primordial emerge historicamente nas mais variadas formas. Aparece como a polaridade do espírito e da espada, do santo e do heroi, do papa e do imperador, do sacerdote e do guerreiro, do letrado e do soldado. A violência é segura de si, se mantém autossuficiente para a certeza de sua irresistibilidade, ameaça intolerantemente todas as resistências com a destruição existencial; por sua vez, o espírito dá reconhecimento aos valores contra os quais pode resistir por um longo tempo, mas aos quais um dia inevitavelmente acaba se submetendo: ele cede perante ela, mas com um tom ressentido de desprezo como "crua", "desajeitada", "estúpida", "estreita", "intransigente", "bárbara", "imoral", para colocá-la em descrédito.  Este foi o mais decisivo êxito do espírito contra a violência: que ele se impôs como a instância legitimada para julgar. Assim ficou a reputação da violência à sua mercê. É parte de um de seus outros empreendimentos de guerra não lidar suavemente com essa reputação. Mas ao dar prioridade a se tornar seu próprio juiz, ele tomou o cuidado de não ocultar sua luz com modéstia. Ele era tão "superior" quanto a violência era "inferior", tão refinado quanto ela era crua, tão habilidoso quanto ela era desajeitada, tão amplo quanto ela era estreita, tão claro quanto ela era escura, tão perspicaz quanto ela era cega, tão livre quanto ela era escravizada, tão universal quanto ela era confinada.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Roy Starrs - Dialética Nietzscheana nos Romances de Yukio Mishima

por Roy Starrs



Apesar das ideias de Nietzsche terem tido o mesmo tipo apelo amplo e às vezes superficial para os escritores criativos japoneses que a suas contrapartes ocidentais, entre os principais escritores Yukio Mishima (1925-1970) deve ser considerado como singular tanto pela medida como pela maneira de seu uso daquelas ideias. De fato, qualquer interpretação dos argumentos dialéticos que estruturam seus principais romances filosóficos e mesmo seus ensaios e manifestos morais/políticos pareceria inadequada se ignorasse seu contexto nietzscheano. Não obstante, apesar de Mishima ter sido neste sentido o mais profundo e bem-sucedido nietzscheano japonês - o mais bem-sucedido em dar uma expressão estética original e interessante para algumas das ideias centrais de Nietzsche - ele de modo algum foi o primeiro. E seria difícil compreender a sua recepção de Nietzsche sem alguma consideração, primeiro, de precedentes históricos - do progresso do nietzscheanismo japonês antes dele - já que isso obviamente ajudou a moldar sua compreensão de Nietzsche, ainda que nem sempre, como veremos, de maneira benéfica.

Na história das relações intelectuais entre Japão e Ocidente, Nietzsche ocupa uma posição singular e importante: ele foi o primeiro grande filósofo europeu ucjas ideias alcançaram um impacto profundo quase simultaneamente nas duas culturas. Talvez em parte por essa razão, a sua influência no Japão, especialmente nos escritores criativos japoneses, tem sido mais profunda, mais amplamente sentida e mais duradoura do que a de qualquer outro pensador ocidental excetuando Marx (1). De fato, na literatura a sua influência tem sido bem maior do que a de Marx - se não no sentido de ter afetado mais escritores, pelo menos no sentido de ter gerado frutos mais férteis. Enquanto o movimento da "literatura proletária" marxista das décadas de 20 e 30 do século XX, por exemplo, produziu pouco que possa ser lido hoje - talvez apenas algumas obras de Kobayashi Takiji - entre os escritores criativos significativamente influenciados por Nietzsche devemos nomear algumas das maiores figuras da literatura japonesa moderna, incluindo Mori Ôgai, Hagiwara Sakutarô, Akutagawa Ryûnosuke, Satô Haruo, Nishiwaki Junzaburô e, é claro, o próprio Mishima. Isso não quer dizer que os escritores japoneses tenham tido uma predileção ou afinidade incomuns por Nietzsche. Poderíamos facilmente fazer toda uma convocatória semelhante de grandes escritores ocidentais do século XX que foram similarmente influenciados - inclusive o romancista favorito de Mishima entre os ocidentais, Thomas Mann. De um jeito ou de outro, as ideias de Nietzsche tem tido um apelo irresistível à imaginação literária. Sem dúvida isso é parcialmente por causa da elevada qualidade literária de sua prosa - uma raridade entre filósofos modernos - mas também isso deve ter alguma relação com a natureza de suas próprias ideias: suas tensões dialéticas parecem aptamente transferíveis para o tipo de tensões dramáticas que estruturam uma obra literária.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - É necessário que nos livremos da globalização das mentes

por Aleksandr Dugin

Tradução por Helena Kardash



A multipolaridade é um olhar para o futuro (como nunca antes feito). Um projeto de organização da ordem mundial sobre princípios completamente novos. Uma revisão profunda dos axiomas sobre os quais a modernidade está assente – em termos ideológicos, filosóficos e sociológicos.

A série de livros Noomaquia é fruto do desejo de estabelecer uma base sistêmica para a Teoria do Mundo Multipolar, que se fundamenta no fato de não haver apenas uma, mas muitas civilizações – cada qual sendo capaz de forjar o seu próprio destino. Não há uma humanidade única e nem tampouco progresso e direitos humanos: tudo isso não passa de uma forma de dominação ocidental. O Ocidente, que busca impor um sistema de valores (derivados da modernidade) e transformar a diversidade das civilizações em uma única civilização pós-humana tecnocrática.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Esteban Montenegro - Superar o Populismo

por Esteban Montenegro



Considerações críticas a partir da visita de Alain de Benoist

Na Argentina há visitas intelectuais que, como a de Ortega y Gasset em 1916, despertam não só um grande interesse mas também uma participação ativa na marcha do pensamento. É necessário dizer em primeiro lugar que aos argentinos nos invade um especial entusiasmo quando aterrisa em nossa terra o intelectual estrangeiro ou quando fazemos nós a viagem que nos permitirá conhecê-lo. E isso vai mais além da importância e estatura do personagem em questão, pois temos em realidade a sensação de que a duras penas nos tornamos pensadores sem a aprovação do estrangeiro. Por exemplo, segundo esta perspectiva a filosofia de Carlos Astrada ostenta um plus de valor por sua relação discipular com Martin Heidegger e Max Scheler. Nenhum mérito do próprio Astrada poderia, segundo esta visão, suprir o que lhe foi dado pelo contato pessoal com os mestres alemães. Esta visão fetichista que em boa medida atravessa quase todos os argentinos é um efeito de nossa situação periférica, para superar a qual não basta cantar loas à liberação dos oprimidos. Como diria Nietzsche, ser livre não é um valor em si mesmo. O importante é para quê se quer liberdade e se temos realmente a força para fazê-lo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - Cesarismo Político, Hegemonia e Contra-Hegemonia

por Aleksandr Dugin



Em todo o mundo, inclusive na Rússia, está surgindo uma crescente demanda por uma verdadeira alternativa ao globalismo. Neste sentido, os conceitos de cesarismo e contra-hegemonia (retirados da filosofia do comunista Gramsci) possuem um enorme valor teórico e ajudam a explicar muitas coisas.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Esteban Montenegro - Pampa e Estepe

por Esteban Montenegro



Comemorando o centenário da revolução russa fazemos esta contribuição ao diálogo dos povos, em face da visita de Aleksandr Dugin à Argentina.

I


Introdução



O Ano Novo do Espírito



Universalização e Filosofia da História


A tendência à unificação do globo terrestre acontece com a força de um destino. Todos sentimos, em um primeiro momento, que se trata do impulso com que a globalização liberal-capitalista atravessa a tudo. Mas o sentimento de todos, o sentido comum, nem sempre acerta. Apear desse processo ter hoje um signo negativo, isso não quer dizer que não se possa orientar seu rumo em outro sentido. Podemos ver então, neste momento crítico, uma oportunidade. Assim o fez Perón quando antecipou que o mundo caminhava rumo à universalização. Introduziu, assim, um conceito, que tentava compreender e oferecer uma orientação para o que estava no porvir. Não se resignava o General, pois não é indefectível que o mercado feche suas mãos sobre o planeta, se tivermos a inteligência e a força para disputar o rumo das grandes integrações entre povos e nações. Aqui tentaremos seguir a linha aberta por este conceito, o processo de universalização, abrindo perspectivas para o exercício de uma geopolítica consciente que responda aos desafios da hora, para que essa hora seja a hora dos povos. A existência de cada um deles depende em grande medida do que aconteça a nível global, de grandes linhas de ação que transcendem os centros de poder local. O maior grau de autonomia passará então por participar na tomada de decisões global da forma mais ativa possível. Só assim alcançará um povo a sua própria conservação.

Esta situação nos empurra ao reconhecimento mútuo. Mas longe disso pressupor outro chamado vazio à paz mundial, necessita tomar como base o conflito e a tensão. Não é esperável que este trânsito ao continentalismo e ao universalismo seja um longo período paulatino e harmonioso, sem tropeços, como pretendeu o mito do progresso no apogeu da modernidade. Ao contrário, a universalização se mostra para nós como profundamente conflituosa porque a própria história o é; ainda que isso não signifique que não alcance em algum momento um novo equilíbrio, e a isso deve apontar. Mas para alcançá-lo, deverá lutar e perseguir sua vocação - e assim a sua própria preservação e a do resto - antes que a paz. Porque o que está em jogo aqui é a própria sobrevivência de todos e cada um dos povos, ameaçada pelo atual rumo globalista. E não obstante, esta luta pela sobrevivência tampouco é uma luta agônica de todos contra todos, como imagina a modernidade liberal. Esta luta é, também, e fundamentalmente, uma luta pelo poder mundial, pelo sentido da história universal.

sábado, 25 de novembro de 2017

Kerry Bolton - Foi o Bolchevismo um Produto do Messianismo Tradicional Russo?

por Kerry Bolton



Com o centésimo aniversário da Revolução Bolchevique em Outubro de 1917, a Rússia ainda é em grande parte produto daquele legado. Mas e quanto ao bolchevismo em si? O bolchevismo despertou forças contraditórias. Este artigo defende que a facção vitoriosa não foi a do marxismo doutrinário, mas sim que ela foi moldada pela "Rússia eterna", e metamorfoseada em algo distante do marxismo, como Trotsky e muitos outros marxistas lamentaram. Neste artigo, o bolchevismo é reexaminado como produto de uma longa tradição, focando nas opiniões do dissidente russo Mikhail Agursky.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Horacio Cagni - A Influência da História Clássica e da Guerra Antiga no Realismo Político Estadunidense

por Horacio Cagni[1]



Se bem o realismo político - tal como todo ismo - é uma expressão ambígua, no léxico político ele é um conceito central, que apela "ao modo de ser das relações de poder, consideradas independentemente dos desejos e preferências dos atores ou das teorias, mais ou menos explicitamente normativas, dos espectadores". É a realidade, então, a que opõe resistência aos desejos e pulsões subjetivas, uma realidade "que vale, apesar de sua finitude, mais que o desejado ou idealmente imaginado e, portanto, o real também é limite, dor e sofrimento" (Portinaro, 2007:18). Enquanto o realismo político, como o gnoseológico, se retrotrai à realidade - entendida de qualquer modo - , ele atribui a ela um valor positivo. Desnecessário dizer que esta escola de pensamento e de ação se nutre dos grandes ensinamentos da história.

Na atualidade existe a tendência a considerar a política externa da grande potência estadunidense, sobrevivente do mundo bipolar fenecido, como o produto de poderes indiretos que, através dos distintos componentes da constelação de poder, atuam no empíreo internacional com o embasamento puro e exclusivo da força. Não obstante, é fundamental considerar que o realismo político estadunidense, uma escola que, com altos e baixos, há duas décadas marca sua política internacional, tem bases teóricas complexas e firmes. Intelectuais relevantes como Hans Morgenthau e George Kennan antes, e Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger depois - muitos deles europeus emigrados aos EUA -, foram as mentes ocultas por trás do agir político de Washington no mundo. Resulta interessante relembrar outros pensadores, alguns de influência demonstrada na direita norte-americana, e outros, representantes do neoconservadorismo estadunidense atual.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Paul Antonopoulos - Venezuela: Experimento Bolivariano Falido ou Acusação Legítima de Imperialismo Americano?

por Paul Antonopoulos



Introdução

A ascensão de Hugo Chávez, um oficial militar de carreira, à presidência em 1999 viu o início do que se tornou conhecido como a revolução bolivariana após a adoção de uma nova constituição para a Venezuela. A revolução viu a redistribuição da riqueza do petróleo depois que a indústria viu uma nacionalização limitada e um pouco independente dos cartéis internacionais do petróleo. O processo foi bem sucedido, em grande parte devido às receitas recordes do petróleo na década de 2000, e viu quatro milhões de pessoas saírem da pobreza, o acesso gratuito e universal a cuidados médicos e educação para todos e a erradicação do analfabetismo.

O sucesso da revolução bolivariana viu a Venezuela sob Chávez tornar-se cada vez mais anti-americana, anti-imperialista e firmemente contra o neoliberalismo e suas instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ambos localizados em Washington DC. O seu mandato foi visto no contexto mais amplo da "maré rosa" socialista que varreu a América Latina e viu a Venezuela alinhar-se com os governos marxistas-leninistas de Fidel e depois Raúl Castro em Cuba e com os governos socialistas de Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) , e Daniel Ortega (Nicarágua).

Chávez pressionou pela integração econômica e social da América Latina para tornar a região totalmente independente do capitalismo dos Estados Unidos (EUA). Tais projetos para integração latino-americana incluem: o estabelecimento da TeleSUR, uma rede de televisão latino-americana patrocinada pela Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Bolívia; O Banco do Sul, um fundo monetário e uma organização de empréstimos estabelecida pela Venezuela, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Equador e Bolívia; A Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (CELAC), que foi criada para aprofundar os laços e a integração desses estados e reduzir a influência significativa dos EUA sobre a política e a economia da América Latina; e talvez o mais importante, a Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA), composta por Antígua e Barbuda, Bolívia, Cuba, Dominica, Equador, Granada, Nicarágua, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, e a Venezuela, e tem como objetivo que a moeda virtual SUCRE substitua o dólar americano pelas Américas, desafiando diretamente a influência e dominação dos EUA na região.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Paul Antonopoulos - Resistência, Imperialismo e Contradições na Guerra na Síria

por Paul Antonopoulos



Introdução:

O imperialismo é o mecanismo que busca controlar militarmente e economicamente o mundo. É por meio de um sistema capitalista, e da exportação de grandes corporações, que se pode impor a própria dominação sobre Estados mais fracos. O imperialismo é o que ocorre quando corporações multinacionais ou um Estado, particularmente da Anglosfera, pode extrair matéria-prima como petróleo e metais preciosos ou impor dominação econômica e militar sobre outro Estado sem ser responsável perante ninguém ou sem dividir os lucros com o povo. No entanto, isso não se reduz apenas à matéria-prima ou à dominação militar: é também é o meio pelo qual o dólar americano, em particular, seja a moeda hegemônica no planeta. Aqueles que não se encaixam nos paradigmas do comércio em dólar americano, ou em ter seus recursos naturais sob controle corporativo ocidental, se tornam alvos.

sábado, 4 de novembro de 2017

Daniele Perra - Messianismo e Imperialismo

por Daniele Perra



Contra quem combatem realmente a Rússia, o Irã, as forças lealistas e o Hezbollah na Síria? A resposta para tal questão, para respeitar o intrínseco caráter dicotômico sacro/profano da ciência geopolítica, não pode se limitar à ideia do conflito pelo controle dos recursos e dos corredores energéticos ou pela vontade norte-americana de impôr o próprio domínio sobre o Rimland eurasiático. O projeto "Grande Oriente-Médio" inaugurado no início do novo milênio pela administração Bush-Cheney, impresso na constituição do pivô geopolítico curdo como ponta-de-lança útil para a desestabilização da região, tem um precedente, substancialmente idêntico na estratégia, no Plano Oded Yinon de 1982 voltado para a realização da Grande Israel (Eretz Yisrael) nos limites esperados para o Estado hebraico pelo pai do sionismo Theodor Herzl em 1904: em outras palavras, "do rio egípcio ao grande rio, o rio Eufrates", segundo o que está escrito no livro de Gênese (15, 18-21).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Aleksandr Dugin - As Raízes da Identidade

por Aleksandr Dugin



Para que analisemos mais corretamente uma série de novas tendências políticas relacionadas ao crescimento do fator identitário, sugiro a seguinte abordagem metodológica, que explica os três níveis da identidade coletiva nas sociedades:

1. Identidade difusa:

A maioria esmagadora dos membros de uma sociedade possui este tipo de identidade como uma percepção vaga, geralmente subconsciente, da unidade de pertencimento a um povo, uma história, um Estado, uma linguagem e religião. A identidade difusa quase nunca domina a vida cotidiana, sendo secundária, ou mesmo terciária, em relação à identidade individual. É comum que aqueles que possuem uma identidade difusa deem prioridade ao próprio "eu", ao conforto, aos sentimentos e à segurança seguido pelos de familiares e amigos – e somente depois vem um vago entendimento a respeito de sua pertença a uma determinada sociedade ou povo (ao invés de a outro). Em circunstâncias normais, a identidade difusa não requer ações específicas e é percebida de maneira fraca: seus portadores podem até não ter noção de seus conteúdos e estruturas. 

Ela só emerge em casos excepcionais: guerras, conflitos, cataclismos políticos ou, às vezes, sob a forma de uma vitória da pátria em eventos desportivos ou em alguma outra conquista significativa. A identidade difusa não impulsiona a pessoa a pertencer a um determinado partido e pode se exprimir através de cosmovisões e de ideologias muito distintas.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Aleksandr Dugin - Qual é o Sentido da Vida?

por Aleksandr Dugin



O sentido da vida está em superar os seus limites.

Eu penso que vida é dinâmica. A vida exige de todos que estão em sua esfera de influência a superação dos seus limites. Realidade como presença é uma realidade morta, ou como imobilidade, é o domínio da morte. Realidade enquanto tarefa é o domínio da vida. É por isso que eu penso que o significado da vida está em superar todas as barreiras, em todas as direções. Há apenas uma coisa, e isso é um truísmo, toda criatura minúscula, até mesmo uma molécula, pode superar algo. A questão é, a superação em todas as direções, no modelo de uma esfera (a verdadeira superação), e há a superação unidimensional, uma trajetória mais geral, mais popular, mas a superação está em todo lugar. Eu penso que só a superação esférica e ininterrupta é a verdadeira.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Alessio Mulas - Política, Liberalismo e Violência: Walter Benjamin e Carl Schmitt

por Alessio Mulas



Tornou-se célebre a carta que, em 1930, Walter Benjamin escreveu a Carl Schmitt. Omitida por Adorno na primeira edição dos Gesammelte Schriften, mas publicada mais tarde por Jacob Taubes, a carta tinha como objetivo informar ao advogado de que seus estudos, em particular Die Diktatur, lhe haviam sido de grande ajuda. [1] Mais além das relações pessoais, é interessante ver como dois pensadores nas antípodas haviam encontrado involuntariamente pontos de convergência de valor notável, e sobre estes pontos se centrará nossa breve análise. Ainda que a teoria política que se conhece com o nome de comunitarismo seja uma via pouco comentada, o certo é que as diversas formas que ela encarna tem como alvo polêmico comum o liberalismo. Para formular uma crítica comunitária é necessário, portanto, examinar a relação do direito e da política com a violência, tema dissimulado pelo liberalismo, mas que afeta à política em sua essência. É o terreno sobre o qual les extrême se touchent.

sábado, 30 de setembro de 2017

Luca Siniscalco - Pensamentos para um Novo Humanismo: A Metanoia Antropológica (Comunitarista) de Mircea Eliade

por Luca Siniscalco



Minha intervenção se desenvolve a partir de dois pressupostos teóricos essenciais, que vale a pena assinalar de imediato para evitar equívocos ou sobreposição de planos de análise heterogêneos.

Em primeiro lugar, é fundamentla, enquanto elemento crítico constitutivo, assumir que não pode haver uma filosofia política sem uma prévia e coerente antropologia (seja esta descritiva ou normativa). Sem dispôr de uma ideia precisa do homem, entendido como sujeito operante em uma rede de relações interpessoais com outros atores - assunção inevitável para escapar de qualquer perspectiva niilisticamente solipsista - não pode haver uma especulação razoável sobre modelos teóricos através dos quais examinar e organizar dita ação. Estudar o homem, e fazê-lo, empregando o vocabulário husserliano, considerando não só a quantidade, mas acima de tudo sua qualidade, e portanto a via régia com o fim de elaborar uma perspectiva comunitária advertida, que não se limita a brincadeira ingênua e sentimental.

Em segundo lugar, é importante em minha opinião estender a reflexão comunitarista a autores normalmente descuidados pelos principais teóricos dessa corrente filosófica; não por cometer estéreis parricídios ou realizar forçações ideológicas, aplicando facciosamente esquemas teóricos a autores estranhos a esta corrente com o simples objetivo de exibi-los como estampas de uma nova religião secular, mas para aceitar o desafio proposto por Aleksandr Dugin quando, em seu ensaio fundador A Quarta Teoria Política [1], convida o leitor a considerar o próprio modelo não sic et simpliciter a hipóstase de uma doutrina completa, mas uma "obra aberta" com o fim de estimular, especialmente nas pars construens, as melhores mentes da cultura antimodernista, o esforço de identificar uma postura capaz de alcançar aquela superação da linha do niilismo com a qual se enfrentaram Jünger e Heidegger na famosa Sobre a Linha [2].

É precisamente sobre a base desses dois pressupostos que tenho ai ntenção de apresentar um exame sintético sobre o "novo humanismo" teorizado pelo historiador das religiões Mircea Eliade, para mostrar como tal perspectiva pode ganhar legitimamente um lugar no debate comunitarista e sugerir núcleos conceituais particularmente eficazes na resolução de algumas problemáticas antigas, em primeiro lugar, a relação entre os pólos do universal e do particular, vínculo sempre filosoficamente polêmico - no sentido etimológico, e especificamente heraclítico, do grego polemos, "guerra".

O "novo humanismo" não é certamente um dos temas principais da obra de Eliade, que centrou sua investigação no estudo principal das religiões segundo a metodologia discutida em diferentes lugares de sua própria obra - em primeiro lugar, no Tratado de História das Religiões [3]. Não obstante, se trata de uma das expressões mais fecundas para dar forma àquela inspiração teórica que anima toda a investigação eliadiana e que às vezes emerge em algumas passagens, em ocasiões icônicas e figurativas, outras vezes dialéticas, através da qual se manifesta em toda sua dinâmica energeia aquele eros filosófico e, assim, espiritual, que anima a investigação histórico-religiosa do autor e que contribui para construir a hermenêutica [4].

A imagem do "novo humanismo" é amplamente debatida por Eliade em seu ensaio Pensamentos para um Novo Humanismo [5]. O ensaio de Eliade oferece uma exegese fenomenológica do mundo globalizado moderno, identificando alguns dos processos que estão impulsionando a transformação da cultura mundial. Os fenômenos fundamentais encontrados são dois: em primeiro termo, o confronto do Ocidente com o universo dos povos extraeuropeus, em particular os asiáticos, que começam a reclamar um papel político de peso em escala global, fazendo sua primeira entrada na temporalidade histórica; em segundo lugar, o desenvolvimento da "psicologia profunda", que abriu à razão ocidental os horizontes infinitos do inconsciente, com seus abismos perturbadores e suas revelações iniciáticas. Ambos os fenômenos puseram o homem ocidental no confronto com a alteridade radical. Eliade afirma que "o encontro com o 'totalmente diferente' [...] traz consigo a experiência de uma estrutura religiosa" [6]: trata-se da mesma estrutura, ainda que em uma escala ontológica diferente, que se manifesta no encontro com a alteridade do sagrado. Dos encontros, assim como dos enfrentamentos, de tipo espiritual surge sempre uma nova criação. Nessa situação histórica, assinala Eliade, pode-se, então, hipotetizar o advento de um novo humanismo, baseado na investigação dos orientalistas, etnólogos, psicólogos e historiadores das religiões comprometidos com o logro de um conhecimento total e orgânico do homem. Seu interesse pela dimensão mítico-simbólica, deixada de lado pelas ciências "duras" e pelas tendências culturais ocidentais, em sua maioria inspiradas pelo progressismo e pelas distintas formas de cientificismo e positivismo, permite identificar novas ideias para uma fundação cultural renovada. É nessa inspiração cultural, espiritual e ecumênica, que se reúne uma superação ulterior, por parte de Eliade, do campo específico da história das religiões. O estudioso reconhece em efeito que as estruturas e os descobrimentos de sua própria disciplina, se integram em uma Weltanschauung mais ampla, podendo oferecer sugestões não de conceitos ou puramente acadêmicas, mas filosóficas e existenciais. Para aproveitar este potencial é oportuno considerar inclusive o processo pelo qual nos aproximamos aos fatos estudados: "A atitude apropriada para compreender o significado de uma situação humana prototípica não é a 'objetividade' do naturalista, mas a simpatia inteligente do exegeta, do intérprete. [...] Aproximar-se a um símbolo, um ritual ou um comportamento arcaico como expressões de situações existenciais, significa já reconhecer neles uma dignidade humana e um significado filosófico" [7]. O conhecimento do outro, seja uma alteridade enraizada nos espaços distantes do mundo ou nos da psique, acrescenta Eliade, pode ajudar o homem ocidental a se conhecer melhor e, inclusive, a desenvolver com vigor renovado a própria busca teórica milenar. Eliade tem bem claro este último ponto, que a filosofia contemporânea não nos deixa de confirmar, demonstrando a previsão do erudito romano. Ele o explica claramente indicando:

"A vontade de compreender adequadamente os 'outros' dará lugar a um enriquecimento da consciência ocidental. O encontro poderia, inclusive, conduzir a uma renovação da problemática filosófica, da mesma maneira que o descobrimento das artes exóticas e primitivas abriu há meio século, novas perspectivas na arte europeia. Nos parece, por exemplo, que um estudo profundo da natureza e da função dos símbolos poderia estimular o pensamento filosófico ocidental e ampliar seu horizonte. É surpreendente que os historiadores das religiões tenham sido levados a ressaltar as audaciosas concepções dos 'primitivos' e dos orientais sobre a estrutura da existência humana, sobre a queda na temporalidade, sobre a necessidade de conhecer a 'morte' antes de poder acessar o mundo do espírito, reconhecendo ideias muito próximas às que hoje estão no centro mesmo da busca filosófica ocidental". [8]

A necessidade de encontro com a alteridade pressiona. Ela insta tanto porque o homem ocidental necessita um repensar e uma nova compreensão de uma parte importante de sua própria herança - aqui a referência está bastante clara: trata-se da dimensão mítico-simbólica suprimida da modernidade - enquanto que "mais cedo ou mais tarde o diálogo com os 'outros', quer dizer, com os representantes das culturas tradicionais asiáticas e primitivas, deverá ser mantido não já na linguagem empírica e utilitária de hoje [...], mas em uma linguagem cultural capaz de expressar as realidades humanas e os valores espirituais" [9]. Trata-se de uma linguagem metafórica e não coisificadora, de tipo mítico-simbólico. O mito, como representação plástica do sagrado, volta a brilhar dentro da prosa eliadiana em sua principal função mediadora: não só entre o imanente e o transcendente, sobre um plano ontológico, mas também entre diferentes culturais, no plano antropológico, que é um singular, mas fascinante reflexo do metafísico.

Sem entrar em mais considerações metodológicas utilizadas por Eliade neste artigo - mas também em um ensaio relacionado, Um Novo Humanismo [10] - destinado a conjugar o "novo humanismo", a hermenêutica e a história das religiões, é oportuno considerar as repercussões teóricas que tais considerações podem ter em um debate comunitarista. O resumo em cinco pontos fundamentais:

* O confronto com a alteridade não é um fenômeno acessório e contingente, mas um dado elementar da natureza humana, que demanda um "outro de si" para reconhecer a própria autoconsciência. Uma perspectiva comunitarista capta e interpreta este processo de um modo mais eficaz que a orientação individualista própria do modelo liberal capitalista.

* O universalismo pode ser compreendido, mais além de qualquer deriva niveladora, igualitária e sincretista, à luz das constantes da natureza humana, que Eliade reconhece como pertencentes à esfera do sagrado, já que, de acordo com qualquer metafísica tradicional, unicamente o sagrado (das Heilige) é propriamente real (das Seiende), ao menos no sentido ontológico forte. Uma perspectiva esta que, ainda que em diferentes facetas, é geralmente compartilhada pela escola da philosophia perennis e pelo pensamento Tradicional [11].

* O humanismo não é o humanismo. Sim, de fato, o conceito de "humanismo" implica principalmente no debate cultural novecentista um antropocentrismo inspirado em princípios racionalistas e imanentistas, a noção de "humanismo", em sua exemplariedade histórica valorizada pela ótica histórico-religiosa adotada por Eliade, representa um panorama dentro do qual a centralidade humana está intimamente ligada, pelo menos segundo a interpretação proporcionada pelo intelectual romeno, à transcendência e ao misticismo, de acordo com um ideal orgânico e holístico do portato cósmico. O humanismo eliadiano é, então, "anti-humanista", de acordo com as categorias descritas por Martin Heidegger em sua famosa Carta sobre o Humanismo [12], e reivindica uma filiação direta da tradição renascentista do homem integral, ao mesmo tempo cientista, alquimista e filósofo.

* As estruturas mítico-simbólicas das quais se constituem tanto a ontologia do real como as formas cognitivas humanas, são coessenciais à antropologia e não podem ser eliminadas do imaginário arquetípico do homem, inclusive do moderno, ou do pós-moderno. O homem é aristotelicamente "animal político", mas inclusive antes homo religiosus, ou melhor homem "total", cujas manifestações são concretamente irredutíveis à parcialidade das disciplinas que se ocupem disso e sempre excedem os planos das ciências particulares, sendo o excesso um caráter constitutivo de sua natureza. Repensar o homem, mais além do dualismo de molde cartesiano e remontando a suas raízes espirituais - meio fundamental entre a dimensão da imanência e a da transcendência, entre a comunidade dos vivos e dos mortos, poderíamos dizer - é uma tarefa mais urgente do que nunca.

* Uma nova resolução da relação entre o particular e o universal é, assim, emblematicamente oferecida pela antropologia elidiana. O resultado dessa última é paradoxal: o homo religiosus é realmente um homem precisamente na medida em que não é homem, isto é, em sua atitude perante a impessoalidade que converge na união mística com o divino. Uma existência aberta para o mundo - em sentido vertical e axial, não horizontal - permite ao sujeito reconhecer a si mesmo e proporcionar um sentido à própria ação, que se mostra já não desligada em relação à estrutura universal, mas complementar a ela. Microcosmo e macrocosmo aparecem em um novo equilíbrio dinâmico, segundo uma resolução da relação entre o individual e o universal que Eliade persegue em toda sua obra: a nível individual, como uma harmonia entre os ritmos do homem e os ciclos cósmicos; a nível comunitário, como conexões vitais entre os membros de uma comunidade e o centro da mesma nas relações entre o indivíduo e as formas de coletividade ulteriores ou ampliadas, a nível metafísico, mediante a ontologia da coincidentia oppositorum (coincidência dos opostos).

Estas breves notas, que demandariam maior aprofundamento, esclarecimento e, principalmente, uma contextualização dentro da obra elidiana e dentro dos temas que nessas notas sobre o comunitarismo são propedêuticas ou consequentes - cito como exemplo os problemas do Centro, a dialética hierofânica, da origem - tem um valor eminentemente evocador. Mas quiçá seja justamente de poderosas evocações e apelações correspondidas de que mais tem necessidade a mísera idade contemporânea a nós. O caminho mais além da consciência infeliz, rumo a uma metanoia que seja uma transformação real - metafísica, portanto - do coração.

1 Arktos, London 2012.

2 A cargo de F. Volpi, tr. it. di A. La Rocca e F. Volpi, Adelphi, Milano 2010.

3 A cargo de P. Angelini, tr. it. di V. Vacca, Boringhieri, Torino 2008.

4 Aquela hermenêutica que Eliade define como "criativa" e "total" e crê ser metodologia irrefutável de uma ciência histórico-religiosa realmente consciente. Aquela hermenêutica que é fundação de uma teoria fenomenológica e descritiva, e que se baseia paralelamente na consciência da impossibilidade de se aproximar ao dado puro – o fato – religioso, sob pena de recair em um naturalismo neopositivista olvidado de toda a problemática gnoseológica. Neste âmbito de estudos metodológicos a obra de Eliade tem muito a oferecer, até invadir problemáticas especificamente teóricas. Uma contribuição a ser redescoberta que, em minha opinião, apresenta concordâncias significativas com as agudas e bem conhecidas considerações desenvolvidas por Husserl em La filosofia come scienza rigorosa, prefacio de G. Semerari, tr. it. de C. Sinigaglia, Laterza, Roma-Bari, 2005) y La crisi delle scienze europee e la fenomenologia trascendentale, prefacio de G. Semerari, tr. it. de C. Sinigaglia, Laterza, Roma-Bari, 2005). Sobre la fenomenología de Eliade, cfr. S. Alexandrescu, “Per una discussione filosofica dell’opera di Mircea Eliade”, en AA.VV., Confronto con Mircea Eliade. Archetipi mitici e identità storica, a cargo de L. Arcella, P. Pisi, R. Scagno, Jaca Book, Milán 1998, pp. 401-409.

5 En «Antaios», IV, (1963), pp. 113-119; tr. it. como prefacio a M. Eliade, Mefistofele e l’androgine, tr. it. di E. Pinto, Mediterranee, Roma 2011, pp. 7-13.

6 M. Eliade, Gedanken zu einem neuen Humanismus (Pensieri per un nuovo umanesimo), cit., p. 115.

7 Ibíd., p. 116.

8 Ibíd., pp. 117-118.

9 Ibíd., pp. 118-119.

10 En M. Eliade, La nostalgia delle origini. Storia e significato nella religione, tr. it. di A. Crespi Bortolini, Morcelliana, Brescia 2000, pp. 13-23. Trata-se de uma versão revisada e ampliada de um artigo originalmente chamado História das Religiões e um Novo Humanismo, que foi publicado pela primeira vez em História das Religiões I (1961).

11 Dentro do qual, em certo sentido, é justamente a Tradição que serve como universal e que se encontra em um continuum com suas manifestações históricas específicas. A literatura sobre a relação entre Eliade e os tradicionalistas é interminável, e com frequência conduz a considerações divergentes. Me limite a remeter aqui a: “Diorama letterario”, Storia, mito e sacro, n. 109 (1987); M. De Martino, Mircea Eliade esoterico. Ioan Petru Culianu e i “non detti”, Settimo Sigillo, Roma 2008, pp. 367-412; L. Sanjakar, Mircea Eliade e la tradizione. Tempo, mito, cicli cosmici, Il Cerchio, Rimini 2014; P. Pisi, “I “tradizionalisti” e la formazione del pensiero di Eliade”, in AA.VV., Confronto con Mircea Eliade. Archetipi mitici e identità storica, cit., pp. 43-133.

12 A cargo de F. Volpi, Adelphi, Milano 1995.



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Eduard Popov - Primavera Russa: A Dinâmica Sociopolítica do Movimento de Independência do Donbass

por Eduard Popov



A ascensão do movimento de protestos no Donbass (e outras regiões da Nova Rússia histórica) que resultou na proclamação das Repúblicas Populares, foi uma reação ao golpe de Estado em Kiev e às políticas russofóbicas agressivas. Não é acidente que o primeiro passo legislativo das novas autoridades ucranianas foi abolir a lei dos idiomas, ratificada em 2003 pela Verkhovna Rada em linha com a Carta Europeia para Idiomas Regionais ou Minoritários, o que efetivamente empurrou o idioma russo para fora do espaço educacional e cultural-informacional da Ucrânia. Porém, o movimento popular no Donbass no fim do inverno e na primavera de 2014 também tinha motivos mais profundos. A proclamação das repúblicas populares do Donbass foi uma reação lógica ao desmonte do Estado ucraniano como ele havia sido constituído no esquema da República Socialista Soviética Ucraniana. As novas autoridades ucranianas violaram o contrato social tácito de lealdade ao Estado existente em troca por um mínimo de direitos linguístico-culturais garantidos para as regiões "Sudeste" (Nova Rússia histórica).

Imediatamente após o golpe de Estado em Kiev em fevereiro de 2014, associações de cidadãos começaram a emergir, mas foram reprimidas pelas ações das forças armadas do Euromaidan. Porém, no Donbass pós-soviético, diferentemente da Crimeia, não havia tradições fortes de movimentos russos ou autonomistas. Uma das razões para isso eram as operações centralizadas do Partido das Regiões, que objetivava subordinar todos os partidos e movimentos orientados para a representação dos interesses da metade russa da Ucrânia e restaurar os laços econômicos e humanitários com a Rússia. No Donbass, o Partido das Regiões se consolidou mais plenamente como força monopolizadora dos interesses das regiões russas da Ucrânia (o "Sudeste").

Isso desempenhou um papel decisivo na futura construção estatal das repúblicas do Donbass. O Partido das Regiões "atropelou" os movimentos sociais independentes. O movimento social República de Donetsk e as filiais regionais do Partido Bloco Russo não tinham papel significativo na vida política do Donbass, e não havia projetos políticos relevantes sob slogans russos. Apenas o Partido Comunista da Ucrânia representava algum tipo de competição para o Partido das Regiões no Donbass.

O movimento em apoio à independência do Donbass surgiu como algo repentino, uma reação visceral ao golpe oligárquico/neonazi em Kiev e em grande medida com base em células locais do Partido das Regiões e de forças da oposição de esquerda, como do Partido Comunista da Ucrânia e do Partido Socialista Progressivo da Ucrânia.

Foi predominantemente por essas forças que o referendo de independência foi organizado e preparado. Além deles, associações sociais também tiveram papel ativo no surgimento do movimento de independência. em particular, um papel enorme foi desempenhado, principalmente no primeiro momento, pelas organizações de "afegãos" (veteranos da guerra no Afeganistão), que vieram a compor o núcleo das unidades de milícia. Na região de Lugansk, um papel importante e até decisivo foi desempenhado pelas comunidades cossacas que possuíam rica experiência de auto-organização e laços desenvolvidos com os cossacos do Don na região russa vizinha de Rostov.

Por volta do fim de fevereiro e início de março de 2014, as organizações sociais do Donbass estavam disputando o controle dos municípios, seus opositores sendo as autoridades regionais. Após o fracassado Congresso de Kharkov em 22 de fevereiro de 2014, no qual os líderes do Partido das Regiões de Kharkov e da região de Kharkov, G. Kernes e M. Dobkin, essencialmente se recusaram a se opôr aos golpistas de Kiev, as burocracias das regiões de Donetsk e Lugansk se depararam com a difícil escolha de ou se submeterem ao novo e ilegítimo governo de Kiev, ou se exporem ao risco de repressão junto à população das regiões. Eles decidiram de forma razoavelmente rápida e declararam lealdade aos golpistas de Kiev. Uma fórmula conveniente justificando isso foi encontrada na noção de preservar a unidade da Ucrânia sob a condição de que Kiev expandisse a autoridade das regiões. em um fórum sobre o desenvolvimento da autoadministração local realizado em Lvov em 27 de março de 2014, o Presidente do Conselho Regional de Donetsk, A. Shishatsky, delineou sua ideia de governo descentralizado, segundo a qual redistribuir autoridade em favor das regiões envolveria excluir o ditado econômico e político de Kiev. Em 31 de março de 2014, o Conselho Regional de Donetsk apelou à Verkhovna Rada da Ucrânia com o pedido de tomar medidas para estabilizar a situação no país emendando a Constituição para empoderar o autogoverno local. [1]

Em 17 de abril de 2014, o Partido das Regiões realizou um congresso extraordinário no qual participaram os deputados dos conselhos locais da região de Donetsk bem como 29 deputados da Verkhovna Rada, que após o golpe de 21 de fevereiro haviam perdido sua legitimidade. (Não obstante, a Verkhovna Rada continuou a operar até que eleições parlamentares foram realizadas em 26 de outubro de 2014 literalmente sob mira de armas). Os líderes do Partido das Regiões, B. Kolesnikov e N. Levchenko, anunciaram que somente eles representavam o "Sudeste" na capital. Uma resolução proposta no congresso continha demandas de que Kiev garantisse autonomia fiscal às regiões orientais, desse status oficial ao idioma russo, e anistia plena a todos os manifestantes. Ao mesmo tempo, a resolução pedia que todos os manifestantes ocupando prédios nas regiões orientais baixassem as armas. Esta última demanda era, de fato, a principal, e ainda assim os líderes do Partido das Regiões admitiram que eles não podiam garantir que Kiev cumprisse os pontos sobre autonomia e status do idioma russo.

Manifestantes viram nessas ações do Partido das Regiões uma tentativa de enganar os movimentos contrários ao golpe. [2] Caracteristicamente, propostas similares buscando um compromisso com o movimento social do Donbass foram vocalizadas por representantes das novas autoridades de Kiev. O governador da região de Donetsk apontado por Kiev, Sergey Taruta, também declarou a necessidade de realizar um referendo nacional sobre o status do idioma russo e para descentralizar a autoridade. Como eventos subsequentes provaram, as afirmações e ações do Partido das Regiões eram apenas para despistar, já que emendas expandindo os direitos das regiões não foram incluídas na Constituição Ucraniana ou na prática jurídica. E o idioma russo foi gradativamente empurrado para fora da vida sóciopolítica e cultural-educacional da Ucrânia.

As declarações e ações das autoridades regionais dos Conselhos Regionais de Donetsk e Lugansk essencialmente legitimavam o governo golpista de Kiev. O Partido das Regiões, tendo emergido como instrumento político da elite financeira-industrial da região de Donetsk, se transformou em um partido clamando representar os interesses de todo o Sudeste. A participação do Partido das Regiões na Verkhovna Rada após o golpe de Estado, seus representantes (M. Dobkin e O. Tsarev) participando nas eleições presidenciais ilegítimas na primavera de 2014, e as atividades dos conselhos regionais das regiões de Donetsk e Lugansk que legitimavam as novas autoridades, demonstraram que o Partido das Regiões havia se transmutado em um dos partidos do Euromaidan ucraniano. Sua função principal se tornou, assim, fornecer um verniz de legitimidade para o governo ilegal dos golpistas de Kiev para o Sudeste.

O Donbass entrou assim na primeira fase de seu desenvolvimento político-estatal privado de sua própria classe política. Na primeira fase, o aparato estatal das regiões de Donetsk e Lugansk (as administrações regionais e a burocracia central das organizações regionais do Partido das Regiões) declarou lealdade às forças que haviam lançado o golpe de Estado em Kiev. A vasta maioria das velhas elites políticas, econômicas e administrativas da região do Donbass (as regiões de Donetsk e Lugansk), assim, apoiavam o novo regime em Kiev e abandonaram o território. A "Primavera Russa" no Donbass pode, assim, ser sociologicamente caracterizada pela frase "povo sem elite". Alternativamente, na expressão figurativa de um veterano dos eventos em Lugansk, essa foi uma revolta dos escravos. A ruptura entre apoiadores do novo governo em Kiev e o movimento russo logo recaiu em linhas socioproprietárias.

A Formação dos Sistemas Político-Partidários da RPD e da RPL: Entre a Primavera Russa e a Experiência Estatal Ucraniana

O nascimento das repúblicas populares do Donbass ocorreu sob o estandarte de um construto ideológico que foi batizado de "Primavera Russa" (imitando a "Primavera Árabe") nas obras de escritores de Moscou. Ignorando o fato de que este termo não se encaixa na situação do Donbass (a população jovem e crescente do Oriente Médio árabe vs. a população velha e em declínio do Donbass), é impossível não reconhecer a imensa importância mobilizadora desse termo no momento inicial do movimento.

O movimento popular no Donbass começou sob slogans proclamando a construção de um Estado russo e/ou de um Estado socialmente justo. Um amplo espectro de forças sociopolíticas apoiando o Donbass - de nacionalistas radicais russos e monarquistas a comunistas e anarquistas - foi unificado por uma rejeição comum do neonazismo ucraniano e de aspectos do Estado ucraniano como a burocratização, o ultracentralismo, a corrupção e a ditadura oligárquica. Na porção de protesto de seu programa, os ativistas do movimento popular do Donbass declaravam solidariedade com os slogans do Euromaidan que sonhavam com enterrar o "velho" Estado ucraniano. A "Revolução da Dignidade" (nome oficial utilizado na Ucrânia para o Euromaidan) acabou no colapso completo de todas as esperanças, o que até os mais ardentes apoiadores do Euromaidan são agora forçados a admitir. Mas o que trouxe vitória à Primavera Russa e às repúblicas do Donbass?

Em 7 de abril de 2014 o Conselho Popular da República Popular de Donetsk foi estabelecido, o qual se declarou a máxima autoridade na república. O corpo consistia de aproximadamente 70 pessoas eleitas pela cooptação de um representante ou de um coletivo de trabalhadores locais ou de uma organização social municipal (dependendo do tamanho da população) que assim se tornava o representante de sua cidade ou distrito no mais alto órgão de poder da RPD. Todas as organizações municipais da antiga região de Donetsk (com exceção dos órgãos repressoras ativamente leais ao novo regime de Kiev, ou seja, o Ministério de Assuntos Interiores e a SBU) estavam representadas no Conselho Popular da RPD. Uma parte importante do Conselho Popular consistia de representantes existentes de conselhos municipais e distritais, ou seja, pessoas eleitas a órgãos locais de poder e possuindo experiência municipal. Além desse grupo, o Conselho Popular da RPD cooptou representantes de coletivos de trabalhadores e de organizações sociais operando nos municípios.

Assim, na fase de surgimento de sua natureza estatal, a RPD e a RPL realizaram o princípio básico de soberania popular refletido nos nomes das repúblicas.

Os deputados do Conselho Popular realizaram a parte principal do trabalho de rascunhar a Constituição da RPD e preparar o referendo sobre independência. Em 7 de abril de 2014, o conselho emitiu a Declaração de Soberania da República Popular de Donetsk e o Ato sobre Independência Estatal da República Popular de Donetsk.

Apesar da pressão política, informacional e militar cada vez maiores e das provocações, um referendo foi realizado nas regiões de Donetsk e Lugansk que perguntava: "Você apoia o Ato de Independência da RPD/RPL?". Na região de Donetsk, 89.7% dos eleitores disseram "sim", enquanto 10.19% dos residentes d região votaram contra a autodeterminação e 0.74% dos bilhetes foram reconhecidos como inválidos. O comparecimento foi de 74.87%.

Na região de Lugansk, a independência foi apoiada por 96.2% dos eleitores e oposta por 3.8%, com um comparecimento total de 81%. Os referendos essencialmente legitimaram o que se tornaria a segunda parte do conflito interucraniano, as Repúblicas Populares, que se opunham ao governo ilegal em Kiev por motivos ideológicos, políticos e militares. Em 14 de maio, o Conselho Popular da RPD se transformou no Supremo Conselho da RPD composto por 150 deputados (apesar do número efetivo ser menor). Após o referendo, ministérios e departamentos começaram a ser formados, e em 14 de maio de 2014, a Constituição da RPD foi adotada. [3]

Eleições para a composição constituinte do Conselho Popular da RPD foram realizadas com observância de todos os procedimentos democráticos, enquanto o mesmo não poderia ser dito sobre as eleições presidenciais extraordinárias ucranianas realizadas em 25 de maio de 2014, que foram marcadas por grosseiras violações procedimentais. A falta de termos competitivos iguals na mídia e nas comissões eleitorais, e intimidação e violência contra candidatos e eleitores do "Sudeste" fizeram da campanha eleitoral ucraniana uma farsa.

Organizações sociais se tornaram uma fonte importante para formar o aparato administrativo e a classe política da RPD e da RPL. Em certas áreas da RPL e em menor medida da RPD, um papel decisivo foi desempenhado pelos cossacos, primariamente por aqueles ligados aos não-registrados cossacos do Don. O líder desse grupo político-militar era o famoso comandante Pavel Dremov. Planos para uma República Cossaca de Stakhanov são atribuídos a ele. (O QG do 6ª Regimento Cossaco de Infantaria Motorizada "Ataman Platov" da Milícia Popular da RPL, contando com mais de 2.000 homens, estava localizado em Stakhanov).

Na fase inicial da existência das repúblicas, líderes carismáticos locais (P. Dremov em Stakhanov, I. Bezler em Gorlovka, I. Strelkov em Slavyansk, A. Mozgovoy em Alchevsk, etc.) eram essencialmente incontroláveis pela liderança republicana em Donetsk e Lugansk. Os líderes políticos da RPD e da RPL (à época, D. Pushilin e V. Bolotov respectivamente) não desfrutavam de prestígio em círculos militares.

No primeiro momento, sob o estandarte da Primavera Russa, a formação e desenvolvimento das repúblicas do Donbass se desdobraram segundo o princípio do governo popular com grande importância atribuída ao autogoverno locao ou literalmente "autoridade no chão". Em alguns casos, autoridades locais operavam segundo as leis da "democracia militar" (por exemplo, na "República Cossaca" de P. Dremov). Este processo tinha um lado negativo que se tornou aparente após a eclosão da guerra. A "democracia militar" não raro se transformava em anarquia e uma forma de controle por grupos armados sobre certos territórios e sua população local. Ao mesmo tempo, a introdução de ordem e segurança básicas, bem como o melhoramento da eficiência das forças armadas demandavam que inúmeras brigadas milicianas fossem transformadas em um corpo militar regular subordinado a um comando centralizado.

O processo de centralização dos grupos armados, assim, afetava tanto as esferas militar como a civil. Segundo representantes de média hierarquia do comando militar da RPD questionados por nós, bem como especialistas civis em ambas as repúblias, este processo pode ser considerado de modo geral como tendo tido sucesso. Mesmo as Forças Armadas Ucranianas, os "batalhões voluntários" e especialistas militares ocidentais notaram a melhoria no gerenciamento das forças armadas da RPD e da RPL. Como qualquer processo social complexo, transformar a milícia em um exército regular não ocorre sem certos custos. Por exemplo, especialistas notaram um declínio na motivação ideológica dos soldados das repúblicas e um percentual maior de oportunistas que serviam apenas por salários e privilégios.

As forças armadas da RPD e da RPL são, atualmente, a instituição social mais importante cujo papel político não corresponde a seu status real. Se o desejo por um representante militar pode ser visto no líder da RPD, Aleksandr Zakharchenko, veterano da brigada Oplot, então na RPL, desde a morte do Ataman Pavel Dremov, o exército tem estado essencialmente privado de representação e influência política nos órgãos supremos de poder.

As repúblias há muito desenvolveram seus próprios órgãos de poder e sistemas político-partidários portando especificidades pronunciadas. Em primeiro lugar, todos os partidos ucranianos foram banidos de operar nos territórios das repúblicas, uma decisão motivada pela concordância dos partidos ucranianos de trabalhar na Verkhovna Rada após o golpe de fevereiro de 2014, uma ação que legitimava o novo governo de Kiev e a "Operação Antiterrorismo".

Na RPD, duas forças políticas reais se formaram que estão representadas no parlamento. Primeiro, há o movimento social República de Donetsk, fundado por Andrei Purgin e então transformado em partido sob o mesmo nome, atualmente chefiado pelo líder da RPD, Aleksandr Zakharchenko e pelo Presidente do Conselho Popular Denis Pushilin. O segundo partido, ou melhor conglomerado de partidos e movimentos, é o Donbass Livre. As diferenças programáticas entre os dois partidos representados no Conelho Popular da RPD são mínimas.

Dois partidos também se formaram na RPL, nomadamente, o movimento Paz para Lugansk, chefiado pelo presidente da República, Igor Plotnitsky, e o União Econômica de Lugansk. Estas forças políticas são ativas foram dos parlamentos também. Ideólogos do Paz para Lugansk orgulhosamente proclamaram um crescimento nas fileiras do movimento, que agora já conta com 87.500 membros. [4]

Tal sistema bipartidário permite que seus líderes controlem de maneira razoavelmente estável o processo político nas repúblicas. Enquanto ideias comunistas tem alguma popularidade na população do Donbass e partidos comunistas na RPD e RPL pudessem contar com apoio eleitoral, nas condições de uma situação semibeligerante, a liderança atual das repúblicas não está interessada em criar um ambiente político-partidário muito competitivo. Porém, os "partidos do poder" eles mesmos cada vez mais se assemelham ao banido Partido das Regiões, dos quais alguns deles são clones.

Alto percentual de representação dos novos "partidos do poder" na equipe administrativa de ambas as repúblicas inclui ex-funcionários do Partido das Regiões. Ao longo de nossas entrevistas com especialistas, quase todos os entrevistados notaram uma tendência perturbadora: o retorno de facto do Partido das Regiões e da burocracia ucraniana às estruturas políticas e administrativas da RPD e da RPL junto a uma separação cada vez maior entre a classe burocrática e a população. Os ex-regionalistas ocupam cada vez mais espaço não só nos órgãos administrativos, mas também nas estruturas partidárias da RPD e da RPL. Este é o mesmo processo descrito por Trótski como "burocratização de um Estado de trabalhadores isolado e a transformação da burocracia em uma casta privilegiada".

Consciência desse processo pode ser vislumbrado até mesmo a partir das publicações oficiais da RPD e da RPL. Em 14 de janeiro de 2017, o presidente da RPD Aleksandr Zakharchenko "deu um duro ultimato aos líderes inescrupulosos", prometendo supervisionar pessoalmente o trabalho das recepções públicas do movimento República de Donetsk. Sua declaração apresentou uma avaliação certeira das atividades do "partido do poder" que se transformou de "intermediário entre o governo e o povo" em um obstáculo burocrático. Zakharchenko também ressaltou um aumento no número de reclamações da população em relação ao trabalho do movimento República de Donetsk. [5]

Após o golpe em Kiev, funcionários alfandegários ucranianos (um dos setores mais corruptos do funcionalismo público ucraniano) apoiaram o novo governo de Kiev e subsequentemente fugiram para a Ucrânia após o início dos conflitos no Donbass. Por volta do verão de 2015, porém, eles retornaram em massa a seus postos, e as alfândegas na RPD e RPL passaram a estar manejadas majoritariamente por funcionários públicos leais ao governo de Kiev. O mesmo se aplica à liderança dos departamentos alfandegários na RPL. O alto percentual de funcionários públicos ucranianos que retornaram ao Donbass após os Acordos de Minsk se acomodaram nas estruturas do Ministério de Assuntos Interiores e do Ministério de Segurança Estatal. Casos absurdos são conhecidos nos quais graduandos da academia da SBU ucraniana nascidos em Donetsk e Lugansk retornaram para seus locais de origem no Donbass para trabalhar para os ministérios de segurança da RPD e da RPL. Funcionários ucranianos similarmente penetraram agências civis na RPD e na RPL, a única exceção nisso sendo as Milícias Populares na RPD e na RPL que cumprem as funções de ministérios de defesa.

Em algumas das agências governamentais da RPD e da RPL, funcionários ucranianos que retornaram já são predominantes, especiamente nos ministérios de impostos e taxas, que são particularmente "férteis" para a corrupção. Funções fiscais estão sendo, assim, realizadas por especialistas cuja lealdade às repúblicas do Donbass é, no mínimo, questionável. É apenas natural que na opinião de representantes entrevistados de círculos empresariais da RPD, toda informação sobre atividades empresariais no Donbass sejam de conhecimento instantâneo em Kiev.

Simultaneamente com o retorno do funcionalato ucraniano às estruturas políticas e administrativas da RPD e da RPL, veteranos do movimento para o estabelecimento das Repúblicas Populares tem sido cada vez mais politicamente marginalizados. Dos primeiros membros do Conselho Popular e do Supremo Conselho da RPD, apenas um punhado retém postos significativos nas esferas política e administrativa. O Partido das Regiões, que perdeu a batalha para os apoiadores do estabelecimento da RPD e da RPL na primavera de 2014 está agora consistentemente recuperando suas posições perdidas em uma "contrarrevolução burocrática".

Instituições influentes, porém informais, também estão presentes junto às elites políticas e administrativas formais da RPD e da RPL. Um papel especialmente significativo e até decisivo na região do Donbass ainda é desempenhado por oligarcas. Este papel ainda não desapareceu da vida econômica da região. É bem conhecido que o Partido das Regiões era a instituição política da oligarquia industrial-financeira de Donetsk na Ucrânia pós-soviética. Na região de Donetsk e na RPD, o "rei do Donbass", o oligarca Rinat Akhmetov, preserva relevância particular. Segundo alguns relatos, "exércitos privados" de Akhmetov até deram apoio a ativistas da Primavera Russa em Donetsk. No que concerne a situação na região de Lugansk, pode-se falar de um papel reservado ao oligarca Aleksandr Efremov (líder da facção do Partido das Regiões na Verkhovna Rada ucraniana de 2010 a 2014, e o líder da organização regional do partido em Lugansk).

A desoligarquização está acontecendo neste momento nas repúblicas do Donbass, mas essa campanha, até agora, tem adquirido apenas contornos vagos. Ela afeta não só a esfera econômica, mas as relações políticas e sociais, às quais agora nos voltaremos na próxima parte de nosso artigo.

Processos Econômicos e Sociais nas Repúblicas Populares do Donbass

A tendência para a oligarquização, ou para a formação de grandes posses de oligarcas através de privatizações injustas e de sua influência ativa ou decisiva nas políticas públicas, foi mais radical na Ucrânia pós-soviética do que em qualquer outra antiga república da URSS no continente europeu. Os oligarcas receberam amplas propriedades não por mérito, mas graças a sua proximidade com o governo ou mesmo participação no governo. Por exemplo, em certa época o homem mais rico na Ucrânia era Viktor Punchuk, genro do segundo presidente ucraniano, Leonid Kuchma. De modo geral, dois grandes clãs territoriais de oligarcas se desenvolveram na Ucrânia: os clãs de Dnepropetrovsk e de Donetsk. A região do Donbass (as regiões de Donetsk e Lugansk da antiga Ucrânia) é a região com a maior concentração de propriedade oligárquica. O oligarca número 1 não só do Donbass mas de toda a Ucrânia durante o Euromaidan era Rinat Akhmetov, que vem de círculos semicriminosos.

A preservação da propriedade oligárquica estava na contramão dos slogans sociais tanto da Primavera Russa como do Euromaidan. A questão da nacionalização da propriedade oligárquica ucraniana emergiu na primeira fase da formação das autoridades estatais independentes do Donbass. Mas nessa fase inicial do estabelecimento das repúblicas populares surgiu um sistema absurdo no qual a propriedade dos oligarcas ucranianos na RPD e RPL, ou seja, empresas que pagavam impostos que iam parar no orçamento militar ucraniano, foi preservada. Segundo o Ministério das Finanças da Ucrânia, entre o início de maio de 2014 e o fim de maio de 2016, empresas registradas nas partes de Donetsk e Lugansk não controladas por Kiev pagaram impostos, taxas e contribuições sociais no total de 36.8 milhões de hryvnias, ou aproximadamente 1.5 bilhão de dólares.

Inicialmente, os pagamentos de impostos para Kiev eram uma medida necessária, como pode ser visto no excerto de uma entrevista com um dos líderes da cidade de Konstantinovka (à época, território da RPD, mas atualmente controlada pela Ucrânia), Vladimir Bugai. A entrevista foi conduzida em meados de junho de 2014:

Eduard Popov: "Como o sistema tributário da cidade de Konstantinovka e da RPD como um todo funciona?"

Vladimir Bugai: "A República de Donetsk coleta impostos que eram previamente pagos para o orçamento local, enquanto os imposts de renda e outras taxas ainda são pagos a Kiev, de modo que eles ainda pagam nossas pensões e benefícios, porque não há sistema previdenciário pronto aqui ainda".

Popov: "Isso quer dizer que as pessoas recebem seus benefícios da Ucrânia?"

Bugai: "Até o mês passado todo mundo recebia tudo. Para maio de 2014 todo mundo recebeu 100%... Eu conversei com a liderança da República de Donetsk e eles disseram que precisamos avançar [rumo a um sistema previdenciário independente] gradualmente. Se cortarmos tudo, a economia entrará em colapso. A maioria dos impostos, ao que parece, tomamos para nós mesmos, mas parte dos impostos entregamos a Kiev para que eles paguem nossos benefícios sociais. Funciona assim: Damos a eles dois rublos e eles nos devolvem um. Assim isso agrada a eles por enquanto, e eles obviamente nos pagam, mas se eles subitamente deixarem de nos pagar, então tentaremos impedir que os impostos cheguem neles".

O "prefeito do povo" de Konstantinovka, Vladimir Bugai, acrescentou: "Temos muitas empresas trabalhando em Donetsk que estão registradas em outras regiões e pagam todos os seus impostos a Kiev, mas agora surgiu a questão sobre re-registrar essas empresas nas repúblicas do Donbass já que elas estão aqui". O proprietário da maioria dessas empresas é Rinat Akhmetov e, novamente nas palavras de Bugai, "ele não tem interesse em pagar impostos à República de Donetsk. Propusemos isso a ele e ele recusou. Agora declaramos que se suas empresas não forem re-registradas nas repúblicas até o fim do mês, então elas serão nacionalizadas. Pushilin anunciou isso em um de seus últimos discursos". [6]

Na prática, porém, a liderança da república foi cada vez mais compelida a respeitar os interesses empresariais dos oligarcas ucranianos. Segundo os especialistas que entrevistamos, criaturas dos grupos oligárquicos estão presentes nas lideranças das duas repúblicas. A nacionalização prometida em maio de 2014 pelos então líderes da RPD não aconteceu. Similarmente às promessas anti-oligárquicas do Euromaidan, os slogans da Primavera Russa sobre combater os oligarcas e construir uma sociedade socialmente justa não se concretizaram. Mas a razão para isso é mais profunda e complexa do que a mera presença de criaturas influentes dos oligarcas ucranianos no alto escalão das lideranças da RPD e da RPL, ainda que este aspecto não deva ser descontado. Ao longo de pesquisas com especialistas na RPD e na RPL conduzidas com representantes de círculos políticos e empresariais, era frequentemente dito que um desmonte radical do modelo econômico existente levaria à paralisação das grandes empresas do Donbass e, assim, privaria pelo menos dezenas de milhares de pessoas de trabalho, o que significaria que, junto com suas famílias, centenas de milhares perderiam os meios de sustento. Porém, todos os entrevistados notaram que a preservação da propriedade oligárquica ucraniana e a continuação dos pagamentos para o orçamento bélico ucraniano eram um beco sem saída.

Mas o problema não é apenas que as repúblicas do Donbass estão financiando a guerra contra elas mesmas através das deduções de impostos para o orçamento ucraniano de empresas pertencentes a oligarcas ucranianos. Ademais, o capitalismo oligárquico desenvolvido na Ucrânia é economicamente inviável, não é competitivo, e contradiz princípios de justiça social. Amplos segmentos da população da RPD e da RPL sonham com a construção de um Estado mais justo que poderia ser considerado uma nova forma de "socialismo russo" livre dos erros doutrinários da URSS e da Ucrânia neonazi/oligárquica.

A situação começou a mudar em fevereiro de 2017. O presidente e o gabinete de ministros da Ucrânia apoiaram o bloqueio do Donbass organizado no fim de 2016 por grupos neonazistas ucranianos na chamada zona da "operação antiterrorismo". O presidente ucraniano Petro Poroshenko ordenou a suspensão temporária de transporte de todos os bens, com exceção dos de natureza humanitária, através da linha de contato entre o território controlado pela Ucrânia e os distritos "ocupados pelos pró-russos" do Donbass. Essa foi uma violação direta dos Acordos de Minsk, especificamente do Ponto 8 que garante a restauração plena dos laços socioeconômicos entre as repúblicas do Donbass e a Ucrânia. [7] Essa decisão do presidente Poroshenko em 15 de março de 2017 foi formalizada em um decreto do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia no mesmo dia.

O bloqueio do Donbass, primeiro de facto e depois de jure, forneceu às autoridades das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk fundamentação para introduzir gerenciamento externo nas empresas ucranianas localizadas em território das repúblicas a partir de 1 de março. Em 27 de fevereiro, durante uma reunião extraordinária do Conselho Popular da RPD, os deputados adotaram um projeto de lei emendando o sistema tributário da república. [8] Uma decisão correspondente foi adotada pelo parlamento da RPL. A essência dessas emendas se resumia a um ultimato: Empresas de cidadãos ucranianos localizadas na RPD e na RPL tinham que ser registradas novamente para pagar impostos para os orçamentos das repúblicas até 1 de março de 2017. Os decretos subsequentes introduzindo gerenciamento externo nas empresas ucranianas na RPD e na RPL estão sendo implementados, e as empresas pertencentes aos oligarcas ucranianos estão continuando a funcionar apesar da resistência de seus proprietários. Um trabalho difícil e nem sempre de sucesso para reorientar os mercados está ocorrendo neste momento.

Aqui intencionalmente colocamos um ponto e descontinuaremos temporariamente nossa análise da situação socioeconômica das repúblicas, sobre a quai esperamos desenvolver um artigo separado. Como os sistemas de seguridade social na RPD e RPL estão estruturados é uma questão totalmente distinta que discutiremos em nosso próximo artigo.

Conclusão

Em termos econômicos, sociais e políticos, as repúblicas do Donbass representam um fragmento da Ucrânia pós-soviética portando todas as características de seu sistema econômica e de sua casta gerencial, tal como uma base tecnológica e produção obsoletas, currupção, uma burocracia incompetente, uma classe política incompetente, desigualdade entre diferentes grupos sociais, etc. A preservação da propriedade oligárquica ucraniana no território da RPD e da RPL, de fato, nos impede de falar em uma soberania real das repúblicas. Até pouco tempo atrás, as empresas oligárquicas ucranianas pagavam ao orçamento ucraniano e, com osegue, financiavam a guerra contra o povo do Donbass. Desde fevereiro de 2017, processos contraditórios de desoligarquização e construção de um modelo econômico mais justo desde as perspectivas nacional e social estão ocorrendo. No momento atual, ainda não há material suficiente para tirar conclusões.

Rumo a que sistema socioeconômico as repúblicas populares do Donbass grvitarão? Será criada ali uma variante "nacional-capitalista" (enfatizando as empresas previamente pertencentes aos oligarcas ucranianos) ou um novo tipo de "socialismo russo"? Ou será preservado o capitalismo oligárquico, sob alguma forma? A nacionalização da propriedade dos oligarcas, por si só, não garante o desenvolvimento socioeconômico, já que um resultado possível poderia ser a substituiçã oda velha classe de grandes proprietários por uma nova casta de oligarcas, que já estava em formação nas repúblicas do Donbass.

A RPD e a RPL, nas mais duras condições, conseguiram defender sua independência do atual governo de Kiev e tiveram sucesso em formar uma Força Armada do Donbass (as milícias populares da RPD e da RPL). Desde a primavera de 2015, os serviços sociais começaram a funcionar, a ameaça de fome foi eliminada, e a população idosa tem recebido suas aposentadorias. Graças ao auxílio russo, as repúblicas do Donbass, no mínimo, não estão em situação socioeconômica pior que as regiões vizinhas da Ucrânia. Ademais, graças ao auxílio russo o Estado tem cumprido seus compromissos mínimos, incluindo na questão da fixação de preços (os bens custam significativamente menos que na Ucrânia), etc.

É óbvio que sem a ajuda continuada da Rússia, as repúblicas do Donbass, mesmo assumindo reformas sociais e econômicas, seriam entidades inviáveis. A única garantia de seu desenvolvimento futuro é a integração econômica, social e humanitária da RPD e da RPL no espaço russo seguindo o modelo osseta e abcázio. O futuro das repúblicas do Donbass pode ser determinado pelos processos políticos e pelas tendências desintegrativas continuamente avançando na Ucrânia. 

[1] http://www.sovet.donbass.com/?lang=ru&sec=04.01&iface=Public&cmd=shownews&args=id:3559

[2] http://www.regnum.ru/news/polit/1792792.html#ixzz4UyyrNkH0

[3] Украина: война с собственным народом. Доклад Московского бюро по правам человека. 19/05/2014  // URL: http://www.perspektivy.info/rus/gos/ukraina_vojna_s_sobstvennym_narodom_2014-05-19.htm

[4] http://lug-info.com/news/one/obschestvennoe-dvizhenie-mir-luganschine-naschityvaet-875-tys-uchastnikov-4658

[5] https://av-zakharchenko.su/inner-article/Stati/Aleksandr-Zaharchenko-budet-lichno-kontrolirovat-rabotu/

[6] http://old.newstracker.ru/news/interview/donbass-ne-dozhdalsia-pomoshchi-rossii-deputat-dnr/

[7] https://ria.ru/world/20150212/1047311428.html

[8] http://dnr-online.ru/parlamentom-respubliki-zakonodatelnogo-uregulirovan-poryadok-vvedeniya-vneshnego-upravleniya-na-predpriyatiyax-ukrainskoj-yurisdikcii/